terça-feira, 4 de novembro de 2025

Histórias daquele tempo com piada - 10

 O Toni a trovoada e o terço!

        Éramos ambos, duas crianças que brincavam descontraídas junto das austrálias, uma pequena vegetação que ficava entre a casa de meus pais, lugar da Pedreira, e a casa do Toni, quinta do Buraco. Não tenho, sequer, ideia do que estaríamos a brincar, mas, fosse o que fosse, quando aqueles trovões potentes estalaram por cima das nossas cabeças a primeira reação que tivemos foi correr a toda a pressa para debaixo de um telhado. E disparamos a correr em direção à quinta do Buraco. Eu, um puto que andaria pela casa dos seis, sete anos, estava de tal forma estarrecido pelo medo que nem um feijão me cabia no cu. O Toni, alguns anos mais velho que eu, tomou a dianteira, e correu a bom correr, indo parar à cozinha da casa da quinta.  Naquela altura, a casa, que hoje já não existe, ficava num vale ladeada por árvores altas, o que tornava mais aterrador o ribombar da trovoada. Encostados a um canto da cozinha, a tremer como varar verdes, lá estávamos nós, a olhar um para o outro sem saber o que fazer, até que o Toni, de voz trémula e com um ar aterrador, me diz:  -Vamos rezar o terço, eu rezo pelos dedos e tu ditas os mistérios! - Sim, porque em minha casa, à noite, sempre se rezou o terço e era suposto eu saber ditar os mistérios. E assim, abstraídos do que se passava lá fora, acabamos por rezar umas quantas “Ave Maria” e uns quantos “Pai Nosso”, até que, sem que tivéssemos terminado o terço, a tempestade tinha acabado!... Saímos, com algum receio, mas felizes porque tínhamos escapado, e o que vimos foi um cenário maravilhoso! A quinta, toda ela, encontrava-se coberta por um manto branco de saraiva, uma tal coisa, que eu ainda hoje tenho essa imagem presente…! Eu e Toni, corremos, feitos duas crianças felizes, para brincar com a saraiva!!!  

Original publicado em 
30-06-2017 no Facebook



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