sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Histórias daquele tempo com piada - 7

 O Joli!

A língua prega-nos algumas partidas, e eu andei alguns anos enganado com uma ideia errada… já explico:
     O Joli era um cão de médio porte, mas impunha respeito, e naquela altura, era eu uma criança, de sete, oito anos, não mais, o cão parecia grande, tão grande que eu ficava todo estarrecido quando o via. Era o cão da quinta do Barral. Normalmente, estava preso, a guardar a quinta, mas o dono, volta e meia o soltava, e ele lá ia passear pela aldeia. Não se metia com ninguém, mas ai daquele que se metesse com ele, ai daquele que lhe atirasse uma pedra, ficava zangado e mostrava aqueles dentes, ameaçador, que a gente até lhe chamava o “arreganha-dentes”.
     O Barral é uma quinta muito bem localizada, virada para Santiago, com aqueles campos em socalcos encosta abaixo até ao rio, até Quintelas. Era uma quinta muito bem trabalhada, com muita produção agrícola e tinha muitos animais; bois, vacas, porcos,  cabras, ovelhas, patos, galinhas, perus….  Estava sempre tudo muito limpinho, era um regalo apreciar o rio douro dali. Tinha tudo para ser uma bonita quinta. Agora!... Deixem que vos diga, está que mete dó! No tempo do Joli, não, estava tudo um brinquinho, dava gosto, carago! E foi num desses dias que estive frente a frente com o Joli, mas com uma relação muito discreta; eu cá tu lá, nada de “cunfias”!...  A minha mãe, de quinze em quinze dias, cozia o pão; amassava a farinha, colocava-lhe fermento e depois deixava a levedar. Enquanto isso, o meu avô ia aquecendo o forno a lenha, e no entretanto, pedia cá ao rapaz para ir ao Barral, com uma telha meia cana na mão, buscar bosta de boi! Vejam lá, mandava-me, literalmente, à merda. Mas é preciso que se note, que aquilo era merda da boa, era para tapar a porta do forno, de cozer o pão, de facto!… E por sinal, ficava muito bem tapada.
     Bom, não me querendo desviar do assunto principal, estava eu, então, a sair da quinta do Barral com a bosta na telha, quando reparo que vem um grupo de pessoas na minha direcção a falar uma língua que eu não percebia. Estávamos no mês de Agosto, portanto, só podiam ser franceses, avec´s, como a malta lhes chamava! Passa aquela gente por mim, e às tantas, ouço uma voz feminina, em bom tom:
- Joli, joli!...
- Olha, eles conhecem o Joli – disse eu, e tal foi o meu espanto!... “O Joli deve ser um cão muito importante” - pensei eu, muito admirado!
Mas eles estavam a olhar para o rio!
E assim foi, até ao dia em que eu fui para a escola aprender a falar francês!... Está-se mesmo a ver!!!...
      

Barral...

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Só!...

 Só, no meio de pessoas!

     As refeições são necessidades básicas diárias de vital importância para a nossa sobrevivência, mas reconheço que mais importante ainda, não é o que se come, mas sim com quem se come. O prazer está no convívio do momento da refeição. Uma prática social muito saudável.
     Era uma família numerosa, mais os animais de estimação, mas sempre, ou quase sempre, ele comia sozinho. Muito raramente, mulher e filhos, lhe faziam companhia durante as refeições. As novas tecnologias dispersavam o convívio!... Cada um se refugiava no seu canto absorvido pelas redes sociais, pelas conversas online, pelos jogos online, pela informação e comunicação, quase que em tempo real!... Mas, o que mais o entristecia e chocava, era ele ver a mulher colocar os pratos na mesa e os filhos retiravam-nos um a um, aqueciam e iam comer para o quarto, cada qual no seu canto, agarrados ao telemóvel ou no computador na secretária a jogar vídeo jogos, ou outra coisa qualquer!...
     Que muito lhe custava comer sozinho. Já muitas vezes ele pensou em ligar com alguém conhecido e convida-lo a vir almoçar, ou jantar consigo,… porque ele sentia-se só!... Muito embora fosse uma casa cheia de gente, não sentia as pessoas junto dele.
     Ouve-se um silêncio…. E o silêncio faz um ruído  tão alto que se ouve profundamente, e magoa, e fere, de tão intenso, que por vezes ele se torna. Tinha uma cadelinha ternurenta de pequeno porte, que era a sua única companhia. Quando estava sentado à mesa, ela enroscava-se junto dos seus pés e ali fica, à espera que se levantasse e fizesse alguma coisa, e sempre a observar cada passo que ele dava!…
     A capacidade de percebermos o silêncio e  interpretarmos os sinais do mesmo, não é fácil. E mais difícil se torna quando colocamos essa capacidade nos outros, em querer que percebam, aquilo que em silêncio transmitimos. Tendencialmente não resulta, e acabamos sempre por cicatrizar sozinhos a ferida de um silêncio dilacerante!...    

26 de Março  2020


Foto: "L´art de la photographie!"