quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Poesia do adverso - 8

 MÃE ETERNA!

Mãe!
Nasci!
Eis-me aqui num turbilhão desenfreado
de gente que corre de lado para lado 
e eu à margem parado!

Que fiz?... Que faço?...
Onde estão os afagos que recebi 
no seio do teu regaço?
Nesse mundo que vivi
onde o sol lampeja amor 
e as estrelas calor.

Mãe! Leva-me.
Tu vês-me?
Estou aqui, mesmo diante de ti,
no meio de uma onda de convulsões
onde as manhãs formulam opiniões
e as tardes vomitam convenções.

Porquê?
Porquê não me dão espaço?...
Porquê'
Porquê me julgam a mais ?...
Que saudades eu tenho do teu regaço
onde me embalavas serenamente.
Oh, como estou arrependido
de o ter perdido.
Mãe! Decididamente 
eu sou o filho que não devia ter nascido.

João Sarmento - Maio/89

 
Foto: "L´art de la photographie!"