A leveza da indiferença!
Quase que sei que não vais chorar
Quase que sei que não vais sentir...
Nada, por quem já partiu
Nada, por quem não volta a vir!...
segunda-feira, 23 de dezembro de 2024
Poemas de dois em dois - 26
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
Histórias daquele tempo com piada - 5
O Melindra e o pão com chouriço
Naquele tempo, a malta, depois de jantar, ficava ali pelo tasco da Milita e do Mota, ou então, no bar da associação a jogar às cartas. E quando não era num lado nem no outro, era mesmo ali , no largo da igreja, em modo de tertúlia, onde discutíamos de tudo, mas quase sempre era sobre futebol, e andava sempre à volta do Porto e do Benfica. Estávamos em Agosto, e naquele dia, que já era noite, o Lino do Portal teve a ideia de desafiar a malta par uma pesca à rede!… Olhamos uns para os outros, eu, o Fausto, o Vasco e o Chico aceitamos o desfio e lá fomos com o Lino, que era quem tinha o barco e a rede. Descemos a Quintelas, onde o barco estava atracado junto a terra, já passaria da meia-noite, e estava escuro como o caraças, não se via um palmo à frente dos olhos. O Fausto sentou-se na proa, o Lino e o Chico prepararam a rede, eu e o Vasco pegamos nas pás e remamos rio acima, sorte a nossa, que a maré estava a subir e tornou-se fácil remar contra a corrente. Eu não sei quantas vezes a rede foi lançada ao rio, mas sempre que era recolhida… peixes, nem vê-los, zero, bola. Nem um. Nem sequer um escalozinho para dar ao gato. Que vergonha!... O Fausto, que já não estava achar piada nenhuma, diz: “Já estou cheio de fome, vamos mas é ali ao Melindra comer qualquer coisa.” – O Melindra era um tasquinho que ficava em Santiago, junto ao rio, e onde se comia bons petiscos. A malta habitualmente ia lá comer um bucho com molho verde que era uma delícia. Lá fomos, altas horas da madrugada. O Fausto, como mais velho, chamou… uma, duas e três vezes, pelo Sr. António Melindra, até que ele lá apareceu à porta, ainda meio acordado meio a dormir. Abriu-nos a porta, e diz de uma forma gentil e simpática:- Ó rapaziada, eu não tenho nada para vos dar!... Só se quiserem pão com chouriço?...
Foi isso mesmo que comemos, e que bem que nos soube. Já não fomos para casa a seco!...
Aquilo é que era gente boa, como já não há!... Levantar-se da cama, às três da madrugada, para dar pão com chouriço a uns jovens que lhe bateram à porta!... Foda-se, é de louvar!!!
Nota: Lembrei-me de partilhar esta pequena história, em memória do companheiro Fausto, que foi, recentemente, vítima de doença prolongada! Até sempre companheiro!
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Estou velho! - Disse o velho!...
Estou velho! - Disse o velho!...
Ser velho, uma dádiva ou uma praga?…- Estou velho! – Disse ele, sentado naquele banco que quase tinha a sua idade, com as mãos apoiadas nos joelhos, já trémulas, e aquele olhar de desânimo por cima dos óculos, pois, porque a idade não perdoa.
- Está nada, você ainda tem muita vida pela frente, ainda nos vai fazer companhia durante longos anos. Você vai ver!
Aquelas palavras produziram algum ânimo, mas o que ele sentia era bem diferente.
- Dói-me tudo, caralho! Estou todo fodido!...
- E então, o senhor doutor já esteve aqui. O que é que ele disse?
- Eu sei lá! Ele receitou prá aqui umas merdas, que eu nem sei o que é isso. Tomo, mas não me faz nada. Dói-me tudo na mesma!
- Tem de dar algum tempo para que a medicação faça efeito! Você vai ver como vai melhorar.
- Tempo, que tempo? Eu já não tenho mais tempo! Já não consigo fazer nada!...
- Nem precisa, você tem sempre quem o ajude. Não está desamparado!
A dependência era coisa que o preocupava, sempre foi capaz de tomar conta de si, mas agora!...
- Olha, vocês até me podem ajudar. Mas eu tenho de me vestir, eu tenho de me lavar, eu tenho de fazer as minha necessidades. Se ficar prá aqui todo engelhado, como é que vou conseguir? Quem é que me vai ajudar?
- Calma, você ainda não chegou a esse ponto. E quando chegar, cá estamos nós para o ajudar. Vai sempre haver alguém que faça isso por si.
- Já viste, eu nem ser capaz de enfiar uma ceroulas nas pernas?!... Não, eu não quero isso para mim!
Baixou a cabeça, inclinou-se sobre os joelhos e assim ficou durante algum tempo. O peso da idade corroía-lhe os ossos, os nervos, os músculos, e até a mente já estava a ficar num canho. As memórias, era aquilo a que ele se agarrava, os momentos de glória na sua juventude, as imagens que produzia na sua mente davam-lhe algum alento!... É bom recordar, para tanto ainda lhe permitia a sua lucidez!.. Sentiu as lágrimas a escorrer pela face, limpou-as com o lenço que trazia no bolso, olhou as visitas, levantou-se e foi mijar ao quintal!... Sim, isso ele ainda conseguia fazer sem ajuda.
O Natal está aí à porta, é isso que eu digo! E quero, com todo o respeito, lançar a discussão sobre o tema do abandono e do isolamento!
segunda-feira, 2 de dezembro de 2024
É justo!...
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