O roubo dos dióspiros… e afinal foram limões!
Meados da
década de oitenta, quase sempre, senão sempre, as coisas aconteciam desta
forma: A malta acabava de jantar, uns mais cedo outros mais tarde, e o ponto de
encontro era sempre o mesmo, tomávamos café na sede da associação, que
funcionava na garagem da casa da paróquia, e depois ficávamos ali no largo da
igreja, defronte da mercearia do Mota e da Milita, em amena cavaqueira, onde se
discutia de tudo ou quase tudo. Muito honestamente, também não havia muito mais
que fazer senão jogar à sueca, fumar uns cigarros e conversar, conversar sobre
tudo, coisas com jeito e coisas sem jeito, e às vezes lá surgia uma ideia
estapafúrdia. O que a malta queria era acção e aventura. Topávamos a tudo,
desde que desse para a borga, e para a gente se distrair um bocado.
- E se fossemos roubar dióspiros à
Fernandinha do Morais? - Alguém disse - Não
sei quem foi, mas isso agora também não interessa. O que interessa, foi que a
malta toda concordou com a ideia e lá fomos, avenida abaixo em direção à quinta
da Fernandinha do Morais. Vejam bem, roubar dióspiros!... Como se aquilo fosse
uma fruta fácil de manusear, Nem sacas levávamos, era comer o que pudéssemos e
mais nada! Ora bem, quando digo roubar,
é preciso que se note: quando o produto do roubo não é armazenado para
posterior lucro do mesmo, temos de considerar que é uma necessidade de consumo
imediato, uma coisa circunstancial, ao que se chama roubar para comer, e sem
provocar estragos, como tal não é pecado!... Mas querem saber a melhor?... Não
havia dióspiros!... Eh pá, ficamos com uma cabeça do caraças, isto para não
dizer uma asneira: - E agora?.. E agora,
olha, quem pagou foi o limoeiro. Roubamos limões!! - E o que vamos fazer com os limões?... Pois
bem, assim como assim, decidimos dar alguma utilidade aos limões e lá fomos nós ter
a casa do João, que morava ao lado da escola, pouco mais velho que nós, e
também levado da breca para a borga. O tempo estava quente, a ideia, talvez,
seria fazer uns refrescos para a malta, mas o que o João fez foi diferente, em
vez do refresco, espetou na nossa frente uma garrafa de rum. Vejam bem, rum!...
Oh pá, a malta em vez de refrescar, aqueceu, e de que maneira!… Pois bem, escusado
será dizer como tudo terminou! Estão mesmo a imaginar?!... Eish, aquilo foi de
escacha pessegueiro! Houve mesmo quem defecasse da janela para a rua e limpasse
a extremidade do intestino grosso à camisola! Vejam bem o estado em que a malta
ficou!… e os limões?... Os limões, lá ficaram em casa do João!...
NOTA: - Eu também tive a minha dose, e não evitei ter de chamar o “gregório”, antes de adormecer!... São coisas! E não me lembro de mais nada!
20 out 2024