O Melindra e o pão com chouriço
Naquele tempo, a malta, depois de jantar, ficava ali pelo tasco da Milita e do Mota, ou então, no bar da associação a jogar às cartas. E quando não era num lado nem no outro, era mesmo ali , no largo da igreja, em modo de tertúlia, onde discutíamos de tudo, mas quase sempre era sobre futebol, e andava sempre à volta do Porto e do Benfica. Estávamos em Agosto, e naquele dia, que já era noite, o Lino do Portal teve a ideia de desafiar a malta par uma pesca à rede!… Olhamos uns para os outros, eu, o Fausto, o Vasco e o Chico aceitamos o desfio e lá fomos com o Lino, que era quem tinha o barco e a rede. Descemos a Quintelas, onde o barco estava atracado junto a terra, já passaria da meia-noite, e estava escuro como o caraças, não se via um palmo à frente dos olhos. O Fausto sentou-se na proa, o Lino e o Chico prepararam a rede, eu e o Vasco pegamos nas pás e remamos rio acima, sorte a nossa, que a maré estava a subir e tornou-se fácil remar contra a corrente. Eu não sei quantas vezes a rede foi lançada ao rio, mas sempre que era recolhida… peixes, nem vê-los, zero, bola. Nem um. Nem sequer um escalozinho para dar ao gato. Que vergonha!... O Fausto, que já não estava achar piada nenhuma, diz: “Já estou cheio de fome, vamos mas é ali ao Melindra comer qualquer coisa.” – O Melindra era um tasquinho que ficava em Santiago, junto ao rio, e onde se comia bons petiscos. A malta habitualmente ia lá comer um bucho com molho verde que era uma delícia. Lá fomos, altas horas da madrugada. O Fausto, como mais velho, chamou… uma, duas e três vezes, pelo Sr. António Melindra, até que ele lá apareceu à porta, ainda meio acordado meio a dormir. Abriu-nos a porta, e diz de uma forma gentil e simpática:- Ó rapaziada, eu não tenho nada para vos dar!... Só se quiserem pão com chouriço?...
Foi isso mesmo que comemos, e que bem que nos soube. Já não fomos para casa a seco!...
Aquilo é que era gente boa, como já não há!... Levantar-se da cama, às três da madrugada, para dar pão com chouriço a uns jovens que lhe bateram à porta!... Foda-se, é de louvar!!!
Nota: Lembrei-me de partilhar esta pequena história, em memória do companheiro Fausto, que foi, recentemente, vítima de doença prolongada! Até sempre companheiro!
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