Estou velho! - Disse o velho!...
Ser velho, uma dádiva ou uma praga?…- Estou velho! – Disse ele, sentado naquele banco que quase tinha a sua idade, com as mãos apoiadas nos joelhos, já trémulas, e aquele olhar de desânimo por cima dos óculos, pois, porque a idade não perdoa.
- Está nada, você ainda tem muita vida pela frente, ainda nos vai fazer companhia durante longos anos. Você vai ver!
Aquelas palavras produziram algum ânimo, mas o que ele sentia era bem diferente.
- Dói-me tudo, caralho! Estou todo fodido!...
- E então, o senhor doutor já esteve aqui. O que é que ele disse?
- Eu sei lá! Ele receitou prá aqui umas merdas, que eu nem sei o que é isso. Tomo, mas não me faz nada. Dói-me tudo na mesma!
- Tem de dar algum tempo para que a medicação faça efeito! Você vai ver como vai melhorar.
- Tempo, que tempo? Eu já não tenho mais tempo! Já não consigo fazer nada!...
- Nem precisa, você tem sempre quem o ajude. Não está desamparado!
A dependência era coisa que o preocupava, sempre foi capaz de tomar conta de si, mas agora!...
- Olha, vocês até me podem ajudar. Mas eu tenho de me vestir, eu tenho de me lavar, eu tenho de fazer as minha necessidades. Se ficar prá aqui todo engelhado, como é que vou conseguir? Quem é que me vai ajudar?
- Calma, você ainda não chegou a esse ponto. E quando chegar, cá estamos nós para o ajudar. Vai sempre haver alguém que faça isso por si.
- Já viste, eu nem ser capaz de enfiar uma ceroulas nas pernas?!... Não, eu não quero isso para mim!
Baixou a cabeça, inclinou-se sobre os joelhos e assim ficou durante algum tempo. O peso da idade corroía-lhe os ossos, os nervos, os músculos, e até a mente já estava a ficar num canho. As memórias, era aquilo a que ele se agarrava, os momentos de glória na sua juventude, as imagens que produzia na sua mente davam-lhe algum alento!... É bom recordar, para tanto ainda lhe permitia a sua lucidez!.. Sentiu as lágrimas a escorrer pela face, limpou-as com o lenço que trazia no bolso, olhou as visitas, levantou-se e foi mijar ao quintal!... Sim, isso ele ainda conseguia fazer sem ajuda.
O Natal está aí à porta, é isso que eu digo! E quero, com todo o respeito, lançar a discussão sobre o tema do abandono e do isolamento!
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