domingo, 18 de fevereiro de 2024

Poesia do adverso - 10


FINGIMENTO DA RAZÃO


Eu não quero ser quem sou
Mas gosto de ser o que sou.
De sentir, de gostar,
De correr, de pular, de pensar...
De amar sem desesperar!

Que essa força do querer
Se vire contra o meu ser!
Que o faça despertar!
Que lhe diga para não parar
Sem nunca desesperar!

A minha vontade é querer
À razão desobedecer!
Esperar por quem não vem!
Querer passar o além 
E ser tudo quem nada tem!

Essa ténue e vaga esperança
Me atormenta a lembrança!
E eu já não posso fingir!
Confunde-se o meu sentir
Por quem vai antes de vir!

E o lúgrebe anoitecer
Eu me julgo parecer
Quem eu ainda não sou!
Quando digo sim! - E me dou!
Quando digo não! - E não vou!

Miguel Savedra  - Julho 89
                              
                                
Ilusão

Foto: "L´art de la photographie!"

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